sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Na idade da Sabedoria, a dignidade de Viver

Na idade da Sabedoria, a dignidade de Viver

Oração de Sapiência proferida na Cerimónia de Inauguração da Universidade Sénior de Peniche

Victor M. Gil

Médico. Professor Universitário

Ao reflectirmos sobre o ainda tão próximo século vinte, é com estupefacção que registamos o caminho percorrido. Os alvores desse jovem século traziam ventos de esperança na superação da miséria, do jugo e da exploração mas a generosidade e o idealismo cedo deu lugar a novas formas de tirania, não menos bárbaras que as que tinham sido derrubadas. A Europa foi varrida por furacões de intolerância e destruição e o sangue de milhões tingiu de rubro os rios por onde durante séculos correu a seiva da nossa Civilização. No entanto, o século europeu terminou em Paz, uma Paz sem precedentes, emergida das cinzas do cansaço de muitas utopias fracassadas. Embora imperfeita, a Democracia surge como o modelo inevitável: nas palavras do insuspeito Winston Churchill, “o pior dos sistemas… com excepção de todos os outros”. O século XXI nasce testemunhando conflitos internacionais de grandes proporções, porventura alimentados pela ganância e desejo de domínio, nasce convivendo com situações da mais abjecta miséria em muitas regiões do mundo, mas sob uma certa candura numa Europa ainda à procura da sua identidade seminal.

Somos contemporâneos de um progresso técnico e tecnológico sem precedentes que toca os caminhos da humanidade de forma mais profunda e célere do que alguma vez aconteceu. O nosso quotidiano é hoje povoado por objectos que se tornaram presença obrigatória a ponto de ser difícil conceber a vida sem eles. Pedir a uma criança para imaginar como seria viver sem telemóvel, internet ou televisão é quase pedir o impossível, remetendo para um universo distante a que provavelmente só os historiadores podem aceder. Toda a parafernália tecnológica aparece com o generoso argumento de nos ajudar a ser mais felizes. Será que o conseguiu?

È inquestionável que o progresso das sociedades mais desenvolvidas, proporcionou aos cidadãos maior conforto e melhores condições de vida mas é igualmente verdade que possuir se tornou o objecto central da vida de muitos, para quem “felicidade” é ter, de preferência ter muito; para os pobres o contentamento de ter o possível, sonhando o impossível, a revolta de não ter mais ou a tentativa de tornar possível o impossível contraindo dívidas que vão ensombrar ainda mais o futuro. Será mesmo que ser feliz é ter coisas?

O chamado “sucesso” nos negócios ou na carreira é em geral propiciador das condições que geram mais conforto e bem-estar. O “sucesso” decorre duma devoção e entrega à actividade profissional altamente consumidora de energia e de tempo e por isso acarretando desgaste pessoal e familiar. A consciência do cumprimento dum dever ou duma missão ou o reconhecimento pelos outros é certamente motivo de satisfação, todavia será o sucesso condição suficiente para a felicidade?

Esta cerimónia inaugura uma Universidade que tem como destinatários os cidadãos seniores. Penso ser uma ocasião privilegiada para reflectir convosco sobre o sentido da vida. Tenho acompanhado profissionalmente ao longo de já muitos anos, inúmeras situações limite, em que a vida se joga no fio da navalha e em que as incertezas, as angústias mas também as convicções e os valores se entrechocam por vezes com intensidade. É inevitável que este seja um tema que ocupa o meu pensamento. Pertenço ao número dos que acredita que um Ser Humano é um ser único, irrepetível, dotado de inteligência e de dignidade intrínseca e que, em consequência, a Vida Humana é um bem supremo, o maior de todos os valores. Muito mais que as ideologias, é talvez a valorização da Vida como Valor Absoluto, o maior ponto de clivagem civilizacional dos nossos tempos. A “centelha de humanidade” que confere dignidade ao nosso ser biológico, distinguindo-o radicalmente dos restantes animais, aponta ao Homem caminhos bem mais largos e horizontes bem mais vastos que o mero cumprimento dos processos biológicos. O Homem está vocacionado para a Felicidade, entendida como uma plenitude profunda e intensa bem para lá duma mera perspectiva hedonista. Para a atingir, a Humanidade reconheceu-lhe Direitos que têm que ser respeitados mas há um trajecto pessoal de busca e crescimento para cada um de nós. Como numa gigantesca encenação, cada Homem tem um papel a cumprir, papel que ele próprio vai descobrindo ao longo da vida e que tem o dever de executar o melhor que conseguir. A cada momento nos são pedidas coisas, umas menores, outras de maior importância mas a todas devemos emprestar o melhor dos talentos que nos foram entregues. Como cidadão, cada um de nós tem o dever de se empenhar na construção da “cidade” que é de todos. Paulo VI escrevia na Encíclica “Populorum Progressio” – “cada um, sejam quais forem as influências que sobre ele se exerçam, permanece o artífice principal do seu êxito ou do seu fracasso: apenas com o esforço da inteligência e da vontade, pode cada homem crescer em humanidade, valer mais, ser mais”.

Conhecimento e Cultura – da Razão à Sabedoria

Durante muitos anos vivemos condicionados pelas múltiplas obrigações profissionais e familiares, que nos ocupam a atenção. O fim desse período propicia a descoberta de um espaço de liberdade, até aí desconhecido. È verdade que a doença limita muitas vezes o exercício e o desfrute dessa liberdade mas mesmo assim é possível encarar o Outono da Vida como um período de serenidade e encantamento da nossa existência.

Os progressos da Ciência Médica proporcionam uma esperança de vida que tem vindo a aumentar e que antecipa um Outono longo para muitos. Infelizmente, a Medicina tem evoluído mais rapidamente que a Sociedade e em muitos casos os cidadãos de mais idade têm uma existência triste, marcada pela solidão, pelo abandono familiar, pela partida dos mais próximos e por não lhes serem garantidas condições dignas de vida. Além disso, o papel outrora desempenhado pelos anciãos nas sociedades tradicionais, como portadores de uma experiência que era argumento de autoridade, é actualmente desvalorizado a favor duma perspectiva utilitarista da vida e das pessoas. Quando alguém deixa de ser útil para executar determinada tarefa é marginalizado e rapidamente esquecido. Vivemos grandes progressos sociais nas últimas décadas, no sentido de maior liberdade, equidade e justiça, mas a sociedade tem ainda um longo caminho a percorrer, caminho de tolerância e de integração, de respeito pela fragilidade e pela diferença. Uma sociedade só é verdadeiramente evoluída quando protege, acarinha e respeita os seus idosos.

Como noutras fases, é indispensável ter um Projecto de Vida, individualizado, realizável, à medida das limitações e capacidades de cada um. O Conhecimento é uma forma de alimento do espírito, pessoalmente enriquecedora e proporcionadora de crescimento. Em qualquer idade é possível a valorização e o crescimento da Pessoa Humana. A sedimentação do Conhecimento gera Cultura que provoca novas inquietações mas eleva o grau de satisfação intelectual.

O que nos distingue como Homens e o que marca cada época e civilização, mais que a política ou a economia é a cultura, que surge como o mais genuíno produto da civilização. Vivemos um tempo de racionalismo exacerbado em que tudo – mesmo o inexplicável - se procura explicar racionalmente. A Razão tem aberto as portas do futuro e comanda a eterna luta da luz contra a obscuridade. Pela Razão e Cultura, podemos entrar na verdadeira Idade da Sabedoria. Todavia, o entendimento do sentido da vida não se esgota na Razão e a dimensão do Sobrenatural e do Religioso é mais um percurso inteiramente ligado à dimensão integral do Homem. O Outono da Vida é, porventura, a ocasião mais propícia para olharmos para dentro de nós próprios, para nos reencontramos connosco, para sabermos escutar o silêncio, nele por vezes reconhecendo a voz de Deus. Da paz interior brota a disponibilidade para os outros e a generosidade, componente indispensável da Vida.

Creio ser este o verdadeiro sentido do desafio que se coloca aos mais velhos, afinal o desafio que se coloca a todos nós, o apontar rumos, o ter projectos, o ir mais além, nesta caminhada de crescimento em Felicidade para o clímax da vida.

Conceptualmente, Universidade significa Universalidade do Saber, do Saber Superlativo, do Saber Académico, do Saber Antigo e do Saber Novo, conservado e alimentado pelos sábios e investigadores do nosso tempo. Diz-se frequentemente que os jovens são a esperança do futuro. É verdade, mas pela mesma ordem de ideias, poderemos dizer que um idoso é a certeza do presente e deve ser olhado com carinho e respeito. Uma Universidade dirigida aos mais idosos, é um enorme desafio intelectual e é, em simultâneo, um hino à Vida e à Dignidade da Pessoa Humana. Bem-hajam os homens e mulheres que sonharam e dão corpo a este projecto.

Peniche, 3 de Maio de 2008

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